quarta-feira, 18 de abril de 2018

QE, 19 de Abril. Textos em análise.

22.5 Hiérocles, Elementa Ethica 1.1-5.
Considero que o melhor começo dos Elementos de Ética é a discussão sobre o primeiro familiar ao animal (ὁ περὶ τοῦ πρώτου οἰκείου τῶι ζώιωι λόγος).
O animal distingue-se do não animal por duas coisas: percepção e impulso (αἴσθησις τε καὶ ὁρμῆι). […] Parece oportuno falar brevemente sobre a percepção, pois é a percepção que nos conduz ao conhecimento do primeiro familiar (φέρει γὰρ εἰς γνῶσιν τοῦ πρώτου οἰκείου). 

Não devemos ignorar que o animal, de modo directo e simultâneo ao seu nascimento, se apercebe de si mesmo (οὐκ ἀγνοητέον ὅτι τὸ ζῶον εὐθὺς ἅμα τῶι γενέσθαι αἰσθάνεται ἑαυτοῦ). Alguns acreditam que a natureza confere a percepção ao animal para que capte as coisas exteriores e não para que também se pereceba a si próprio (πρὸς τὴν τῶν ἐκτὸς ἀντίληψιν, οὐκέτι δὲ καὶ πρὸς τὴν ἑαυτοῦ).

Os animais percebem, em primeiro lugar, as suas próprias partes (τὰ ζῶια πρῶτον μὲν μερῶν τῶν ἰδίων αἰσθάνεται ): assim os seres alados percebem a disponibilidade e a adequação das asas para o voo, e os seres terrestres percebem cada uma das suas próprias partes, não apenas que as têm mas também para que uso as têm (ὅτι ἔχει καὶ πρὸς ἣν ἔχει χρίαν). Nós próprios também percebemos os nossos olhos, ouvidos e demais órgãos sensoriais. Deste modo, então, quando desejamos ver algo estendemos os nossos olhos na direção  do objecto visível e não os ouvidose, quando desejamos ouvir algo estendemos os nossos ouvidos e não os nossos olhos. E quando desejamos dar um passeio não usamos as mãos para andar mas usamos por completo os pés e as pernas e do mesmo modo, quando queremos agarrar ou dar qualquer coisa não usamos as pernas mas as mãos. Portanto, a primeira prova de que todo o animal se percebe a si mesmo é a consciência das suas partes e das funções por causa das quais as partes lhes foram conferidas (αἰσθάνεσθαι τὸ ζῶιον ἅπαν ἑαυτοῦ ἡ τῶν μερῶν καὶ τῶν ἔργων, ὑπὲρ ὧν ἐδόθη τὰ μέρη, συναίσθησις). A segunda prova é que os animais não se encontram inconscientemente dispostos a respeito dos equipamentos de que estão dotados como meios de defesοὐδὲ τῶν πρὸς ἄμυναν παρασκευασθέντων αὐτοῖς ἀναισθήτως διάκειται).

Com efeito, quando os touros se preparam para combater contra outros touros ou com certos animais de outras espécies põem os seus cornos à frente do seu corpo, como se fossem as suas armas conaturais para a contenda. Também cada um dos demais animais se encontra assim numa relação com a sua arma apropriada e, por assim dizer, conatural. […] Mais ainda. Os animais estão conscientes de que partes são fracos em si mesmos e de que partes das que existem neles são fortes e resistentes. 

Assim, o touro, quando se prepara para o ataque, põe os seus cornos diante do resto do seu corpo. A tartaruga, quando está consciente de um ataque, esconde a sua cabeça e as suas patas na sua carapaça, as partes vulneráveis na parte dura e menos atacável. O caracol também faz algo de parecido ao refugiar-se na sua concha quando está consciente de um perigo. A ursa parece não ignorar a debilidade da sua cabeça, razão pela qual, quando é golpeada com paus ou alguns outros objectos capazes de ferir essa parte, põe as suas mãos sobre a cabeça, que recebem, então, a violência dos impactos. Algo de parecido também faz o sapo, um animal muito hábil a saltar, o qual sem dúvida não é superado na sua capacidade de saltar por nenhum outro animal, pelo menos dos que são do seu tamanho. E, certamente, está consciente de quanto se estende um intervalo de espaço. Pois bem, se é empurrado por uma ribanceira abaixo, não se fia na sua própria capacidade de saltar para a frente, e atira-se a si mesmo para o chão. Mas não se atira de qualquer maneira. Antes, infla-se a si mesmo para fichar inchado o máximo que puder de forma semelhante a um odre cheio de ar, deixa-se cair enquanto levanta as suas patas e a sua cabeça e industria-as a respeito de como atenuar com as suas partes inchadas os danos da queda. [Os] animais têm consciência não apenas das debilidades dos outros animais, mas também da sua força e quais constituem uma ameaça para si e com quais podem evitar as hostilidades e com quem têm por assim dizer um acordo indissolúvel. 

Se os animais não percebessem as vantagens que os fazem superiores aos demais animais, tal não sucederia. Com efeito, a captação de algo externo não se cumpre sem a percepção de si mesmo (καθόλου γὰρ οὐ συντελεῖται τῶν ἐκτὸς τινος ἀντίληψις δίχα τῆς ἑαυτῶν αἰσθήσεως), pois junto com a percepção de branco, por assim dizer, também percebemo-nos a nós mesmos embranquecidos e com a percepção de doce adoçados e com a percepção de quente aquecidos, e de maneira análoga também sucede nos demais casos.

Portanto, desde o momento em que, sem dúvida, o animal recém nascido percebe algo e junto com a percepção de alguma outra coisa nasce a percepção de si mesmo, é evidente que os animais desde o começo poderiam perceber-se a si mesmos. Em termos gerais não se pode ignorar que a potência da condução  começa por si mesmo (ὥστ’ ἐπειδὴ πάντως μὲν γεννηθὲν εὐθὺς αἰσθάνεταί τινος τὸ ζῶιον, τῆι δ’ ἑτέρου τινὸς αἰσθήσει συμπέφυκεν <ἡ> ἑαυτοῦ, φανερὸν ὡς ἀπ’ ἀρχῆς αἰσθάνοιτ’ ἂν ἑαυτῶν τὰ ζῶια. τοῖς δ’ ὅλοις οὐκ ἀγνοητέον, ὡς ἡγεμονικὴ πᾶσα δύναμις ἀφ’ ἑαυτῆς ἄρχεται).

A natureza que coere, conserva, nutre e faz crescer uma planta pareicipa ela mesma antes por si mesma destas mesmas partes. Um argumento semelhante aplica-se a qualquer tipo de princípio, inclusivamente à percepção, uma vez que ela mesma é um poder que tem o carácter de um princípio e é uma coisa mais coesiva que a condição e também que a natureza, é manifesto que poderia a começar a partir de si mesma e que, antes de apreender alguma das outras coisas se perceberia a si mesma. ἥ τε φύσις, ἡ συνέχουσα καὶ σώζουσα καὶ τρέφουσα καὶ αὔξουσα τὸ φυτόν, αὐτῶν τούτων πρότερον αὐτὴ μετέχει παρ’ αὑτῆς. ὁ δὲ παραπλήσιος λόγος κατὰ πάσης ἀρχῆς, ὥστε καὶ ἡ αἴσθησις, ἐπειδὴ καὶ αὐτὴ δύναμίς ἐστιν ἀρχική, προσεχέστερον δέ ἐστι χρῆμα ἢ ἕξις τε καὶ φύσις, δῆλον ὅτι ἄρχοιτ’ ἂν ἀφ’ ἑαυτῆς καὶ πρὶν τῶν ἑτέρων τινὸς ἀντιλαβέσθαι, ἑαυτῆς αἰσθάνοιτο.

O aspecto principal e geral do argumento precedente é que o animal, mal nasce, percebe-se a si mesmo. Depois disto, então, é óbvio que, quando nele surge uma apresentação (representação, impressão, sensação, ideia) de si mesmo, retém o persuasivo que concerne à apresentação- com efeito como poderá ser de outro modo e dá-lhe o seu assentimento. De qualquer modo, há que entender este assentimento à apresentação (representação, impressão, sensação, ideia de si) que o animal se compraz consigo ou não se compraz consigo ou nem se compraz nem deixa de se comprazer consigo. Mas a natureza também poderia receber a acusação de que se esforça em vão sobre tais coisas antes do nascimento, se recém nascido, o animal não vem a comprazer-se consigo mesmo (ἡ   (40) φύσις, ὡς μάτην τὰ τοιαῦτα καμοῦσα φαίνέσθαι, εἰ μὴ μέλλει τὸ ζῶιον εὐθὺ γενόμενον ἀρέ-
σειν ἑαυτῶι ). É por isso que ninguém, nem mesmo Margites, diria que, uma vez nascido o animal não se compraz consigo mesmo nem com a apresentação a si de si mesmo. Por outro lado, também não se dá o caso de lhe ser indiferente, pois o mesmo não ter comprazimento em si tal como o estado de não comprazimento leva à destruição do animal e ao desprezo da natureza (διὰ ταῦτα οὐκ ἄν μοι δοκεῖ τις, οὐδὲ Μαργείτης ὤν, εἰπεῖν ὥς τε γεννηθὲν τὸ ζῶιον ἑαυτῶι τε καὶ τῆι φαντασίαι τῆι ἑαυτοῦ δυσαρεστεῖ· καὶ μὴν οὐδ’ ἀρρεπῶς ἴσχει· οὐχ ἧττον γὰρ τῆς δυσαρεστήσεως καὶ αὐτὸ τὸ μὴ εὐαρεστεῖν πρός τε ὄλεθρον τοῦ ζώιου καὶ πρὸς κατάγνωσιν φέρει τῆς φύσεως·).  

De onde se segue que este argumento nos força a reconhecer que o animal ao receber a primeira percepção de si mesmo imediatamente está familiarizado consigo mesmo e com a sua própria constituição. […] Cada animal, na medida das suas possibilidades, faz o que lhe diz respeito pela sua própria conservaçãoo, evitando de longe toda a armadilha e industriando-se para permanecer desafectado pelos seus ataques, lançando-se na direcção dos factores de conservação e proporcionando-se todos os bens para a sua permanência. […] A natureza, com efeito, também é hábil a infundir e difundir um amor intenso por si mesmos a estes animais, já que a ser de outra maneira a sua conservação seria inviável. É por isso, portanto, que também me aprece que as crianças não suportam facilmente permanecer fechados em divisões escuras sem som algum. Com efeito ao estirar os seus órgãos sensoriais, sem conseguirem escutar nem ver nada, recebem a apresentação da sua própria destruição e por isso sofrem. 

τὸ ζῶιον, τὴν πρώτην αἴσθησιν ἑαυτοῦ λαβόν, εὐθὺς ὠικειώθη πρὸς ἑαυτὸ καὶ τὴν ἑαυτοῦ σύστασιν.

τί γάρ; οὐχὶ κατὰ τὴν ἑαυτοῦ δύναμιν ἕκαστον ποιεῖ τὸ ἐπιβάλλον ὑπὲρ τῆς ἑαυτοῦ συντηρήσεως, ἐκκλεῖνον μὲν πᾶσαν ἐπιβουλὴν πόρρωθεν καὶ διαφεύγειν μηχανώμενον ἀπαθὲς ἐκ τῶν σφαλερῶν, ...τον δ’ ἐπὶ τὰ σωτήρια καὶ πάντ’ ἀγαθὰ καὶ ποριζόμενον τὰ πρὸς διαμονήν.


TFA, quinta-feira, 19 de Abril. Textos em análise.

       Hierocles, FE
       Afirmam que o animal dirige o primeiro impulso em direcção da própria conservação, porque a natureza o familiariza consigo mesmo desde o princípio, como diz Crísipo no livro I sobre os fins, quando sustente que a sua própria constituição e a sua consciência dela é o primeiro familiar a todo o animal. Não é verosímil, com efeito, que a natureza fizesse o animal estranho a si mesmo nem que, tendo-o produzido, não o tenha feito estranho nem familiar a si mesmo. […] Deste modo, afasta-se das coisas que lhe trazem dano e são desvantajosas e aproxima-se das que lhe são familiares. […] Como foi acrescentado aos animais o impulso, de que fazem uso para se dirigirem para o que lhes é familiar, para eles o que é conforme à natureza é ser administrado de acordo com o impulso. E uma vez que a razão foi dada aos seres racionais como o governante mais perfeito, viver segundo a razão correctamente é para eles o que é viver segundo a natureza, pois a razão sobrevém como artesã do impulso.
        (85)   Τὴν δὲ πρώτην ὁρμήν φασι τὸ ζῷον ἴσχειν ἐπὶ τὸ τηρεῖν
ἑαυτό, οἰκειούσης αὐτὸ τῆς φύσεως ἀπ’ ἀρχῆς, πρῶτον οἰκεῖον λέγων
εἶναι παντὶ ζῴῳ τὴν αὑτοῦ σύστασιν καὶ τὴν ταύτης συνείδησιν·
οὔτε γὰρ ἀλλοτριῶσαι εἰκὸς ἦν αὐτὸ <αὑτῷ> τὸ ζῷον, οὔτε ποιή-   (5)
σασαν αὐτό, μήτ’ ἀλλοτριῶσαι μήτ’ [οὐκ] οἰκειῶσαι. ἀπολείπεται
τοίνυν λέγειν συστησαμένην αὐτὸ οἰκειῶσαι πρὸς ἑαυτό· οὕτω γὰρ
τά τε βλάπτοντα διωθεῖται καὶ τὰ οἰκεῖα προσίεται. […] ἐκ
περιττοῦ δὲ τῆς ὁρμῆς τοῖς ζῴοις ἐπιγενομένης, ᾗ συγχρώμενα
πορεύεται πρὸς τὰ οἰκεῖα, τούτοις μὲν τὸ κατὰ φύσιν τῷ κατὰ τὴν
ὁρμὴν διοικεῖσθαι· τοῦ δὲ λόγου τοῖς λογικοῖς κατὰ τελειοτέραν
προστασίαν δεδομένου, τὸ κατὰ λόγον ζῆν ὀρθῶς γίνεσθαι   (10)
<τού>τοις κατὰ φύσιν· τεχνίτης γὰρ οὗτος ἐπιγίνεται τῆς ὁρμῆς.
       22.2 Cícero, De fin 3.16-19
       quando nasce o animal sente apego por si mesmo e uma inclinação não apenas para a sua própria conservação mas também para a sua própria condição e para aquelas coisas que conservam a sua própria condição. E, pelo contrário, sente estranheza por tudo o que do destrói ou por tudo aquilo que parece trazer destruição.  […] Sentimos estima por aquelas coisas que foram adoptadas  como prioritárias por natureza o facto de que não há ninguém que, tendo a possibilidade de escolher, não prefira ter todas as partes do seu corpo bem formadas e íntegras em vez de as ter diminuídas ou deformadas ainda que possa utilizá-las. 
       simulatque natum sit animal ipsum sibi conciliari et commendari ad se conservandum et ad suum statum eaque, quae conservantia sint eius status, diligenda, alienari autem ab interitu iisque rebus, quae interitum videantur adferre. […] fieri autem non posset ut appeterent aliquid, nisi sensum haberent sui eoque se diligerent. ex quo intellegi debet principium ductum esse a se diligendo. 
       22.4 Séneca, Ep. 121.5-21; 23-24



       Pois o homem sente estima por si mesmo a respeito daquela parte pela qual é homem. Então, como é possível que um bebé sinta apego à sua constituição racional se não é racional? Cada idade tem a sua própria constituição: uma coisa é o caso do bebé outra a da criança, outra a do adolescente, outra a do velho: todos eles sentem apego pela própria constituição em que se encontram. […] Os períodos da primeira infância, da infância, a adolescência e a velhice são muito diferentes. Eu fui um bebê, um menino e um adolescente sou o mesmo. Assim, ainda que cada um de mim tem a sua constituição diferente, em momentos diferentes, o apego à sua própria constituição que é a sua no momento em que é bebé não a terá quando for jovem. […] Eu ocupo-me do meu próprio cuidado. Evito a dor por respeito a quem? A mim mesmo. Ocupo-me, portanto, do meu próprio cuidado. Se levo a cabo todos os meus actos pelo meu próprio cuidado, estou a ocupar-me de mim antes de tudo o mais. […] E uma vez que todo o cuidado é pelo que está mais próximo, qualquer pessoa está confiada a si mesma. [...] Portanto, mesmo os animais jovens, quando saem do útero da mãe ou do ovo, familiarizam-se de imediato com o que lhes é hostil e evitam o que é letal. […] Não depende da experiência e não é pela prática que alcançaram o estado em que se encontram, mas devido a um desejo natural de auto-conservação. 

TFA, terça-feira, 17 de Abril. Texto analisado.

       21.1 DL 7.84 (SVF 3.1; LS 56A)
•       Dividem [sc.: os estoicos] a parte Ética nos seguintes tópicos sobre o impulso (hormê) e sobre o que diz respeito às coisas boas e más (peri agathôn kai kakôn), sobre as paixões (peri pathôn), sobre a excelência (peri aretês) sobre a finalidade (peri telous) e sobre o valor primeiro (peri prôtês axias), sobre as acções (peri tôn praxeôn) sobre os actos devidos (peri tôn kathêkontôn) e sobre as exortações e dissuasões (protropôn te kai apotropôn).

•TFA
•Terça-feira, 17 de Abril
•21.1 DL 7.84
 Τὸ δ’ ἠθικὸν μέρος τῆς φιλοσοφίας διαιροῦσιν εἴς τε τὸν περὶ ὁρμῆς καὶ εἰς τὸν περὶ ἀγαθῶν καὶ κακῶν τόπον καὶ εἰς τὸν περὶ παθῶν καὶ περὶ ἀρετῆς καὶ περὶ τέλους περί τε τῆς πρώτης ἀξίας καὶ τῶν πράξεων καὶ περὶ τῶν καθηκόντων προτροπῶν τε καὶ ἀποτροπῶν. οὕτω δ’ ὑποδιαιροῦσιν οἱ περὶ Χρύσιππον καὶ  Ἀρχέδημον καὶ Ζήνωνα τὸν Ταρσέα καὶ Ἀπολλόδωρον καὶ Διο- γένην καὶ Ἀντίπατρον καὶ Ποσειδώνιον· ὁ μὲν γὰρ Κιτιεὺς Ζήνων καὶ ὁ Κλεάνθης, ὡς ἂν ἀρχαιότεροι, ἀφελέστερον περὶ τῶν πρα- γμάτων διέλαβον. οὗτοι δὲ διεῖλον καὶ τὸν λογικὸν καὶ 
τὸν φυσικὸν.
•21.4,Séneca, Ep.89. 14-15
Ergo cum tripertita sit philosophia, moralem eius partem primum incipiamus disponere. Quam in tria rursus dividi placuit, ut prima esset inspectio suum cuique distribuens et aestimans quanto quidque dignum sit, maxime utilis—quid enim est tam necessarium quam pretia rebus inponere?— secunda de impetu,de actionibus tertia. Primum enim est ut quanti quidque sit iudices, secundum ut impetum ad illa capias ordinatum temperatumque, tertium ut inter impetum tuum actionemque conveniat, ut in omnibus istis tibi ipse consentias. Quidquid ex tribus defuit turbat et cetera. Quid enim prodest inter <se> aestimata habere omnia, si sis in impetu nimius? quid prodest impetus repressisse et habere cupiditates in sua potestate, si in ipsa rerum actione tempora ignores nec scias quando quidque et ubi et quemadmodum agi debeat? Aliud est enim dignitates et pretia rerum nosse, aliud articulos, aliud impetus refrenare et ad agenda ire, non  ruere. Tunc ergo vita concors sibi est ubi actio non destituit impetum, impetus ex dignitate rei cuiusque concipitur, proinde remissus <aut> acrior prout illa digna est peti.
•22.1 DL 7.85-86
Τὴν δὲ πρώτην ὁρμήν φασι τὸ ζῷον ἴσχειν ἐπὶ τὸ τηρεῖν ἑαυτόοἰκειούσης αὐτὸ τῆς φύσεως ἀπ’ ἀρχῆς, καθά φησιν ὁ Χρύσιππος ἐν τῷ πρώτῳ Περὶ τελῶν, πρῶτον οἰκεῖονλέγων εἶναι παντὶ ζῴῳ τὴν αὑτοῦ σύστασιν καὶ τὴν ταύτης συνείδησιν· οὔτε γὰρ ἀλλοτριῶσαιεἰκὸς ἦν αὐτὸ <αὑτῷ> τὸ ζῷον, οὔτε ποιήσασαν αὐτό, μήτ’ ἀλλοτριῶσαι μήτ’ [οὐκ] οἰκειῶσαι. ἀπολείπεται τοίνυν λέγειν συστησαμένην αὐτὸ οἰκειῶσαι πρὸς ἑαυτό· οὕτω γὰρ τά τε βλάπτοντα διωθεῖται καὶ τὰ οἰκεῖα προσίεται. Ὃ δὲ λέγουσί τινες, πρὸς ἡδονὴν γίγνεσθαι τὴν πρώτην ὁρμὴν τοῖς ζῴοις, ψεῦδος ἀποφαίνουσιν. ἐπιγέννημα γάρ φασιν, εἰ ἄρα ἔστιν, ἡδονὴν εἶναι ὅταν αὐτὴ καθ’ αὑτὴν ἡ φύσις ἐπιζητήσασα τὰ ἐναρμόζοντα τῇ συστάσει ἀπολάβῃ· ὃν τρόπον ἀφιλαρύνεται τὰ ζῷα καὶ θάλλει τὰ φυτά. οὐδέν τε, φασί, διήλλαξεν ἡ φύσις ἐπὶ τῶν φυτῶν καὶ ἐπὶ τῶν ζῴων, ὅτι χωρὶς ὁρμῆς καὶ αἰσθήσεως κἀκεῖνα οἰκονομεῖ καὶ ἐφ’ ἡμῶν τινα φυτοειδῶς γίνεται. ἐκ περιττοῦ δὲ τῆς ὁρμῆς τοῖς ζῴοις ἐπιγενομένης, ᾗ συγχρώμενα πορεύεται πρὸς τὰ οἰκεῖα, τούτοις μὲν τὸ κατὰ φύσιν τῷ κατὰ τὴν ὁρμὴν διοικεῖσθαι· τοῦ δὲ λόγου τοῖς λογικοῖς κατὰ τελειοτέραν προστασίαν δεδομένου, τὸ κατὰ λόγον ζῆν ὀρθῶς γίνεσθαι <τού>τοις κατὰ φύσιν· τεχνίτης γὰρ οὗτος ἐπιγίνεται τῆς ὁρμῆς.


quinta-feira, 12 de abril de 2018

segunda-feira, 9 de abril de 2018

TFA, terça-feira, 10 de Abril, 2018: Textos.

Excurso: Aristóteles, MF, II. Introdução à noção de causalidade nos estoicos. 
ARKHÊ (Arist. MF994a1-2.)
Certamente que existe um certo princípio  e as causas dos entes não podem ser desprovidas de limite  nem em série nem em forma, isto é evidente. Ἀλλὰ μὴν ὅτι γ’ ἔστιν ἀρχή τις κα οὐκ πειρα τὰ αἴτια τῶν ὄντων οὔτ’ εἰς εὐθυωρίαν οὔτε κατ’ εἶδοςδῆλον

MATÉRIA
Nem com efeito o que é “de um material”, Xfeito de a, bou cé capaz de ir até ao infinito (como a carne feita de um elemento terreno, a terra por sua vez feita de um elemento aéreo e o ar de um elemento ígneo, sem que venha a parar o nexo causal).
οὔτε γὰρ ὡς ἐξ ὕλης τόδ’ ἐκ τοῦδε δυνατὸν ἰέναι εἰς πειρον  (οἷον σάρκα μὲν ἐκ γῆς, γῆν δ’ ἐξ ἀέρος, ἀέρα δ’ ἐκ πυρός, καὶ τοῦτο μὴ ἵστασθαι)
•DE ONDE VEM O PRINCÍPIO DA MUDANÇA (Arist. MF994a5-8)
nem de onde provem o princípio da mudança (como o homem ser capaz de ser levado pelo vento, o vento é capaz de ser levantado pelo sol, o sol é alterado pela contenda sem que haja nenhum limite a nenhuma destas coisas). 
οὔτε ὅθεν ἡ ἀρχὴ τῆς κινήσεως (οἷον τὸν μὲν ἄνθρωπον πὸ τοῦ ἀέρος κινηθῆναιτοῦτονδ’ πὸ τοῦ ἡλίουτὸν δὲ ἥλιον πὸ τοῦ νείκουςκαὶ τούτου μηδὲν εἶναι πέρας)

CAUSA FINAL (Arist. MF994a8-10)
Nem respeito àquilo por amor do qual qualquer coisa existe pode ir até ao infinito desprovido de limite, o jogging por mor da saúde, esta por mor do bem estar, o bem estar por mor de outra coisa qualquer e assim sucessivamente uma coisa sempre por mor de outra coisa.
ὁμοίως δὲ οὐδὲ τὸ οὗ ἕνεκα εἰς ἄπειρον οἷόν τε ἰέναι, βάδισιν μὲν ὑγιείας ἕνεκα, ταύτην δ’ εὐδαιμονίας, τὴν δ’ εὐδαιμονίαν ἄλλου, καὶ οὕτως ἀεὶ ἄλλο ἄλλου ἕνεκεν εἶναι
FORMAL (MF99a10-16)
E é exatamente o mesmo com a causa formal. Pois, no caso de todos os termos intermediários de uma série que estão contidos entre um primeiro e um último termo, o termo anterior é necessariamente a causa daqueles que o seguem; porque se tivéssemos que dizer qual dos três é a causa, deveríamos dizer "o primeiro". De qualquer forma, de certeza que não é o último termo, porque o que vem em último lugar não é a causa de nada. Nem, por sua vez, é o termo intermediário, que é apenas a causa de um (e não faz diferença se é causa de um só um termo intermediário ou de vários, nem se eles são infinitos ou limitados em número). Mas das séries que são infinitas deste modo, e em geral do infinito, todas as partes são igualmente intermediárias, até ao momento presente. Assim, se não há primeiro termo, não há nenhuma causa.
MF994a22-26
Há dois sentidos em que uma coisa "vem" de outra - à parte daquela em que se diz que uma coisa vem depois da outra, por exemplo os jogos olímpicos vêm a seguir aos jogos ístmicos - ou no sentido em que um homem vem de uma criança, depois de se ter desenvolvido, ou no sentido em que o ar vem da água. Ora, nós dizemos que um homem "vem" de uma criança, no sentido em que o que se tornou algo vem disso mesmo que está ainda em vias de se tornar mas não se tornou em algo: isto é, o perfeito vem do imperfeito.
MF994a27-31
(Pois assim como "tornar-se" é sempre intermédio entre ser e não ser, assim existe o que se está tornando entre o que é e o que não é. O aprendiz está aprendendo, e esse é o significado da afirmação de que a pessoa que aprendeu vem da pessoa que está a aprender "aprendiz". Por outro lado, A vem de Bno sentido de que a água vem do ar pela destruição de B.
Irreversibilidade(MF99a31-b3)
uma criança não pode vir de um homem, pois o resultado do processo de transformação não é o Xque está se tornando Xmas ainda não é X, o qual só existe depois que o processo estar concluído. É assim que o dia vem depois da madrugada, porque é dia apenas depois de ter amanhecido; e, portanto, a madrugada amanhecer não vem do dia.
•FINAL II (994b9-16)
Além disso, a causa final de uma coisa é um fim, e é tal que não acontece por causa de alguma outra coisa, mas todas as outras coisas acontecem por sua causa. Portanto, se houver um último termo deste tipo, a série não será infinita. E se não houver tal termo, não haverá causa final. Aqueles que introduzem o infinito não percebem que estão a abolir a natureza do Bem (embora ninguém tentasse fazer nada se não tivesse a noção de era provavélque viria a atingir algum limite), nem haveria inteligibilidade no mundo, porque o ser humano que tem inteligência age sempre por causa de algo, e isso é um limite, porque o fim é um limite.
•FORMAL II, MF994b17-25
Nem por sua vez a causa formal pode ser remetida a outra definição mais completa, pois a definição prévia é sempre mais próxima, e a posterior não é; e onde a definição original não se aplica, nem a subsequente se aplica. Além disso, aqueles que possuem tal teoria acabam com o conhecimento científico, pois sob esta óptica, é impossível conhecer qualquer coisa até se chegar a termos que não podem ser analisados. Ter conhecimento, também, é impossível. Pois, como alguém pode conceber coisas que são infinitas deste modo? É diferente no caso da linha, que, embora em relação à divisibilidade, nunca pare, não pode ser concebida a menos que nos detenhamos (e é por isso que, ao examinar uma linha infinita, não se pode contar as suas secções).

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Questões de Ética, quinta-feira, 5 de Abril, 2018: 18h00-21h00. Textos em análise

       21.1 DL 7.84 (SVF 3.1; LS 56A)
       Dividem [sc.: os estoicos] a parte Ética nos seguintes tópicos sobre o impulso (hormê) e sobre o que diz respeito às coisas boas e más (peri agathôn kai kakôn), sobre as paixões (peri pathôn), sobre a excelência (peri aretês) sobre a finalidade (peri telous) e sobre o valor primeiro (peri prôtês axias), sobre as acções (peri tôn praxeôn) sobre os actos devidos (peri tôn kathêkontôn) e sobre as exortações e dissuasões (protropôn te kai apotropôn).
           
            21.2 Epicteto, Diss. 3.2.1-5 (LS 56C)
       São três os tópicos a respeito dos quais deve ser exercitado aquele que está para ser glorioso e nobre (askêthênai dei ton esomenon kalon kai agathon): o que diz respeito aos desejos e aversões (orexeis kai ekkliseis), para que estando de desejos não falhe a obtenção do que deseja (mêt’ oregomenos apotunkhanêi) e sentindo aversão não caia naquilo que procura evitar (mêt’ ekklinôn peripiptêi). O que respeita as impulsões e as repulsões (hormai kai aphormai) e o que diz simplesmente respeito ao acto que é devido (kathêkon), para que aja com ordenação, com razoabilidade e não de modo descuidado. O terceiro é sobre a ausência de erro e a imponderabilidade e em geral o que diz respeito aos assentimentos (sunkatatheseis). O mais importante de todos os tópicos e o que exerce mais pressão diz respeito às paixões (pathê). Porquanto a paixão só nasce quando não se encontra aquilo que se deseja e cai precisamente naquilo que se quer evitar. É isto que provoca perturbações, confusões, azares, infelicidades, é a paixão que faz crescer em nós lamentos, gemidos, invejas, faz de nós invejosos e zelosos, é por causa das paixões que não somos sequer capazes de escutar a voz da razão. O segundo ponto diz respeito ao acto devido (kathêkon). Com efeito eu não devo ser impassível (desprovido de paixão: apathês) como uma estátua, mas devo preservar as relações tanto naturais como adquiridas como homem piedoso, como filho, como irmão, como pai, como cidadão. O terceiro diz respeito àqueles que estão já avançados [no exercício da ética] e relaciona-se com a sua segurança para que nem nos sonhos lhes ocorra despercebidamente uma impressão (phantasia) que fique sem ser examinada (anexestatos), nem na embriaguez nem num surto de melancolia.
       21.4 Séneca, Ep. 89. 14-15 (LS 56B)
       [14] Portanto, já que a filosofia tem três partes, comecemos por dispor, em primeiro lugar, a parte moral. Esta pareceu-lhes bem que fosse dividida também em três partes. Assim, a primeira parte é um exame que visa distribuir por cada um o que é seu e estimar quanto e o que é que cada coisa tem de valor, um exame utilíssimo, pois o que há de mais necessário do que dar o preço a cada coisa? A segunda parte diz respeito à impulsão (de impetu), a terceira diz respeito às acções. A primeira parte é, então, para que julgues quanto vale cada coisa e a sua importância (quidque sit), a segunda para que captes um impulso na direção de cada coisa que seja ordenado e moderado. A terceira parte para que haja concordância (conveniat) entre o teu impulso e a acção, para que em todas estas situações estejas de acordo contigo próprio (tibi ipse consentias). [15] A falta de alguma destas partes perturba o conjunto. Qual é a vantagem de ter todas as coisas estimadas se o teu impulso é excessivo? Qual é a vantagem de reprimir um impulso e ter os desejos em seu poder, se na própria acção ignorares as oportunidades, e não souberes quando ou o quê ou onde ou de que modo se deve agir (tempora ignores ne scias quando quidque et ubi et quemadmodum agi debeat)? Uma coisa é conhecer as dignidades e o preço das coisas, outra conhecer os momentos, outra saber refrear os impulsos e caminhar até ao que deve ser feito, mas não precipitar-se nessa direcção. Nessa altura, então  a vida estará de acordo consigo quando a acção não deixou de lado o impulso e o impulso foi concebido a partir da dignidade de qualquer coisa, do mesmo modo o impulso é mais lasso ou mais tenso consoante a coisa é digna de ser procurada.
       Hierocles, FE
       Afirmam que o animal dirige o primeiro impulso em direcção da própria conservação, porque a natureza o familiariza consigo mesmo desde o princípio, como diz Crísipo no livro I sobre os fins, quando sustente que a sua própria constituição e a sua consciência dela é o primeiro familiar a todo o animal. Não é verosímil, com efeito, que a natureza fizesse o animal estranho a si mesmo nem que, tendo-o produzido, não o tenha feito estranho nem familiar a si mesmo. […] Deste modo, afasta-se das coisas que lhe trazem dano e são desvantajosas e aproxima-se das que lhe são familiares. […] Como foi acrescentado aos animais o impulso, de que fazem uso para se dirigirem para o que lhes é familiar, para eles o que é conforme à natureza é ser administrado de acordo com o impulso. E uma vez que a razão foi dada aos seres racionais como o governante mais perfeito, viver segundo a razão correctamente é para eles o que é viver segundo a natureza, pois a razão sobrevém como artesã do impulso.
        (85)   Τὴν δὲ πρώτην ὁρμήν φασι τὸ ζῷον ἴσχειν ἐπὶ τὸ τηρεῖν
ἑαυτό, οἰκειούσης αὐτὸ τῆς φύσεως ἀπ’ ἀρχῆς, πρῶτον οἰκεῖον λέγων
εἶναι παντὶ ζῴῳ τὴν αὑτοῦ σύστασιν καὶ τὴν ταύτης συνείδησιν·
οὔτε γὰρ ἀλλοτριῶσαι εἰκὸς ἦν αὐτὸ <αὑτῷ> τὸ ζῷον, οὔτε ποιή-   (5)
σασαν αὐτό, μήτ’ ἀλλοτριῶσαι μήτ’ [οὐκ] οἰκειῶσαι. ἀπολείπεται
τοίνυν λέγειν συστησαμένην αὐτὸ οἰκειῶσαι πρὸς ἑαυτό· οὕτω γὰρ
τά τε βλάπτοντα διωθεῖται καὶ τὰ οἰκεῖα προσίεται. […] ἐκ
περιττοῦ δὲ τῆς ὁρμῆς τοῖς ζῴοις ἐπιγενομένης, ᾗ συγχρώμενα
πορεύεται πρὸς τὰ οἰκεῖα, τούτοις μὲν τὸ κατὰ φύσιν τῷ κατὰ τὴν
ὁρμὴν διοικεῖσθαι· τοῦ δὲ λόγου τοῖς λογικοῖς κατὰ τελειοτέραν
προστασίαν δεδομένου, τὸ κατὰ λόγον ζῆν ὀρθῶς γίνεσθαι   (10)
<τού>τοις κατὰ φύσιν· τεχνίτης γὰρ οὗτος ἐπιγίνεται τῆς ὁρμῆς.
       22.2 Cícero, De fin 3.16-19
       quando nasce o animal sente apego por si mesmo e uma inclinação não apenas para a sua própria conservação mas também para a sua própria condição e para aquelas coisas que conservam a sua própria condição. E, pelo contrário, sente estranheza por tudo o que do destrói ou por tudo aquilo que parece trazer destruição.  […] Sentimos estima por aquelas coisas que foram adoptadas  como prioritárias por natureza o facto de que não há ninguém que, tendo a possibilidade de escolher, não prefira ter todas as partes do seu corpo bem formadas e íntegras em vez de as ter diminuídas ou deformadas ainda que possa utilizá-las.
       simulatque natum sit animal ipsum sibi conciliari et commendari ad se conservandum et ad suum statum eaque, quae conservantia sint eius status, diligenda, alienari autem ab interitu iisque rebus, quae interitum videantur adferre. […] fieri autem non posset ut appeterent aliquid, nisi sensum haberent sui eoque se diligerent. ex quo intellegi debet principium ductum esse a se diligendo.
       22.4 Séneca, Ep. 121.5-21; 23-24
       Pois o homem sente estima por si mesmo a respeito daquela parte pela qual é homem. Então, como é possível que um bebé sinta apego à sua constituição racional se não é racional? Cada idade tem a sua própria constituição: uma coisa é o caso do bebé outra a da criança, outra a do adolescente, outra a do velho: todos eles sentem apego pela própria constituição em que se encontram. […] Os períodos da primeira infância, da infância, a adolescência e a velhice são muito diferentes. Eu fui um bebê, um menino e um adolescente sou o mesmo. Assim, ainda que cada um de mim tem a sua constituição diferente, em momentos diferentes, o apego à sua própria constituição que é a sua no momento em que é bebé não a terá quando for jovem. […] Eu ocupo-me do meu próprio cuidado. Evito a dor por respeito a quem? A mim mesmo. Ocupo-me, portanto, do meu próprio cuidado. Se levo a cabo todos os meus actos pelo meu próprio cuidado, estou a ocupar-me de mim antes de tudo o mais. […] E uma vez que todo o cuidado é pelo que está mais próximo, qualquer pessoa está confiada a si mesma. [...] Portanto, mesmo os animais jovens, quando saem do útero da mãe ou do ovo, familiarizam-se de imediato com o que lhes é hostil e evitam o que é letal. […] Não depende da experiência e não é pela prática que alcançaram o estado em que se encontram, mas devido a um desejo natural de auto-conservação.


quarta-feira, 4 de abril de 2018

Temas de Filosofia Antiga (TFA), 3ª feira, 3 de Abril, 2018.

       Os estoicos supõem que o universo (to holon) e a totalidade (to pan) são coisas distintas, pois dizem que o cosmos é o universo (to holon), mas que o vazio extracósmico com o cosmos é a totalidade (to pan) e que, por isso, o universo é limitado (pois o cosmos está limitado), enquanto a totalidade (to pan) é ilimitada, pois é assim o que se encontra fora do cosmos.
       12.2 Sexto Empírico, AM, 9.331-336
       O cosmos diz-se de três maneiras, de acordo com os estoicos: o próprio deus, individualmente qualificado a partir de toda a substância, o qual é indestrutível e não gerado ao ser o demiurgo da ordenação cósmica e, segundo certos lapsos de tempo qualitativamente determinados, ao absorver em si mesmo toda a substância e gerá-la novamente a partir de si mesmo; também aplicam “cosmos” à ordenação mesma dos astros e, em terceiro lugar, ao composto de ambos. Assim, cosmos é o indivíduo qualificado peculiarmente a partir da substância da totalidade das coisas ou… um sistema composto de céu e terra e os seres naturais que há neles ou também um sistema composto e deuses e seres humanos e das coisas que se geraram para eles.
       12.3. DL. 7.137-140
       O cosmos tem uma natureza que o administra. Isto pode reconhecer-se em primeiro lugar a partir da ordem das suas partes, depois a partir da ordem em que se dão os sucessos, em terceiro lugar, a partir do facto de que cada coisa foi criado com vista a outra e que além do mais a partir de que todas as coisas possuem um uso altamente benéfico.
       12.6 Cleómades, Cael. 1.1,3-18
       Dos corpos, com efeito, uns estão vinculados por disposição, hecsei, outros por natureza, physei, por alma, psuchêi, e, outros, por alma racional, logikê psychêi. (…) A disposição é um sopro, pneuma, que retorna sobre si mesmo, pois começa a estender-se a partir das partes centrais e vai até aos limites e, tocando nas extremidades das superfícies regressa pelo caminho inverso e volta ao lugar de onde saiu da primeira vez. Este duplo percurso percorrido continuamente é próprio da disposição e é indestrutível. Às plantas deu-lhes natureza, sendo esta uma mistura de diversas capacidades: nutrição, transformação e crescimento. A alma distingue-se da natureza de três maneiras: percepção, impressão e impulso. O ser humano recebeu o privilégio da razão electiva, a qual tomou o hábito de compreender a natureza de todos os corpos e todas as coisas no seu todo.
       12.7 Fílon de Alexandria, QD (quod Deus sit immutabilis) 35-45

Nota: Estas traduções são adaptações da tradução castelhana da obra de referência do curso.